"eu sou um arquipélago de vazios"
O professor e o espelho >>> #3 Cartas Para Não Dizer
O que sou hoje? O que sou não é o acúmulo do tempo ou a galeria das recordações que empilhei nos instantes que vivi. Não… de jeito nenhum! Não sou a lista das coisas que desejei ou as ideias que vislumbrei em sonho e que, feito o esforço por cumpri-las, puderam ser reais no amontoado das minhas ações.
O que eu sou hoje é a metade daquilo que quis ser (um pouco mais ou um pouco menos) somado a tudo o que consegui ser. O que sou são minhas emoções fora de lugar e que, de tão embaralhadas que são, estão constantemente a me enganar e me fazer pensar ser aquilo que não sou.
Hoje sou este homem de frente para o espelho, sou este a escovar os dentes de sorrir, a limpar os óculos sujos de ver, a lastimar as olheiras de sofrer por baixo desses óculos… Impressão geral? Nem preciso dizer que estou péssimo, infelizmente – olhos cansados de outras vidas, cansados de não dormir ou de não saber sonhar.
O que sou são noites não dormidas, os sóis que não vêm mais e a ânsia com a qual eu sigo buscando no espelho pelos novos sinais daquilo que meu corpo nem sabe como sentir: a inútil pressa que temos por viver, a incontrolável sede por querer sonhar e a insaciável atração por desejar sempre mais (existir mais, estar mais, ser mais).
Eu me sinto como uma falsa invenção que sequer sabemos que inexiste… Sou a grande estupidez que cometo ao aceitar essa bobagem – de que jamais me verei como os outros me veem e jamais serei a imagem que sonho ser.
O que sou hoje é a combinação aleatória que existe no cruzamento entre as linhas do meu rosto e os fios dos meus pensamentos. Hoje sou o necessário tempo que desacontece, sou o sagrado instante do “quase”... Esse quase um segundo dedicado pra ignorar a mim mesmo e pensar na vida em si.
Tudo (por dentro ou por fora de mim) insiste em não ser, como uma gigantesca falta de significação… Acontece que nenhuma aventura supera aquilo que se inventa e sonha feito castelos na areia das minhas distrações – virá o oceano do tempo para esquecê-los.
Na vida de todo dia (que entrelaça real e irreal) sou um professor; mas, na vida que existe na última camada (onde mora a verdade que é matriz de todo o resto), eu sou um arquipélago de vazios: sem desejos, sem palavras, sem formas.
Só universos em branco… Só vazio: dependo da poesia pra me escrever.
• Fragmentos de “Cartas para Não Dizer”1 | Ruan de Carvalho, o poeta onírico.
“Cartas pra Não Dizer” é um livro que tenho elaborado nos últimos anos… Fala de amores não ditos, sentimentos adiados e acontecimentos cotidianos que se misturam aos fluxos de consciência. São textos que não buscam resposta, apenas um exercício de sobreviver ao excesso de sentir (como quem escreve para não se perder dentro do que sente).
Obrigado pela leitura! ❤️





Aqui acompanho o poeta Ruan em sua escrita explícita, real e, muitas vezes, incômoda por nos jogar contra nossas inquietações, e tenho a oportunidade de me indentificar com seus textos, que nos tocam de forma singular. Grata, Ruan.
Belíssimo texto Ruan, sincero, intrínseco e honesto. É um texto que fala muito dos seus projetos como pessoa, formas de exterioriza-los e trabalha-los internamente traçando um gráfico imaginário da sua personalidade com o passar dos tempos. Parabéns, é a linha de pensamento que eu gosto de seguir, escrever embora a minha escrita segue uma pluralidade de estilos inclusive Eróticos, contos infantis e cia.
@OPoetaLuízKon'Z ✒️ 📝 🖋️