"Ainda vale a pena amar?"
o mundo cabe num único gesto, numa única configuração de mão | CPND #10
Todas as palavras já nascem um pouco exaustas. Elas chegam até mim usadas por séculos de bocas, atravessadas por guerras, promessas, despedidas, saudades e poemas. Chegam gastas. Cansadas demais.
Talvez seja por isso que, quando tento dizer que amo, as ideias se dissolvem ao redor do coração… Porque não é apenas “falar de amor”: é o modo como os dias mudam de peso, a sensação primitiva de vida e arrastamento, o modo como as horas se salvam do sufocamento e passam a respirar. É o modo como o mundo, tão vasto e tão incompreensível, cabe num único gesto, numa única configuração de mão.
Ainda vale a pena amar? Não sei! Talvez não seja essa a questão. O mar não vale a pena, o céu não vale a pena, as estrelas não valem a pena, o universo que abraça tudo não vale a pena... Tudo isso existe e é — imensidade demais, intensidade demais.
Foi de olhos fechados que enxerguei o amor. Foi a água do tempo que me choveu e que me afeiçoou, gota a gota, ao calor de sol que só existe nela – fogo de mulher. Foi minha total distração da vida que me fez atravessar outra vida, que me fez navegar profundidades, gostar das raízes invisíveis que ligam pensamentos e lembranças...
E hoje o amor está antes dos versos e depois deles. Antes do que se consegue explicar e depois do que se consegue entender. Amor feito de respostas e mistérios: um claro-escuro que é quase uma fé. Um crer naquilo que não pode simplesmente não-ser. Eis o enlaçamento de tudo – sensação permanente de espanto, primeiro fim de tarde que origina todos os fins de tarde, o vislumbre de todas as coisas improváveis deste universo.
• Fragmentos de “Cartas para Não Dizer”1 | Ruan de Carvalho, o poeta onírico.
“Cartas pra Não Dizer” é um livro que tenho elaborado nos últimos anos… Fala de amores não ditos, sentimentos adiados e acontecimentos cotidianos que se misturam aos fluxos de consciência.
Obrigado pela leitura! ❤️




