"elevador das sensações desconhecidas"
O mundo deixou de se mover > #9 Cartas Para Não Dizer
É preciso dobrar numa rua errada, mesmo que o coração se vire de costas pro mundo. É preciso correr em total desencontro do que se esperava. Quem sabe, procurar a voz do vento nas noites inquietas de não viver — cada veia pela qual viaja seu sangue de ar e cada semente de vida plantada nos sonhos, de vida não vivida crescendo lentamente sob os pés.
Você acaba por encontrar os pensamentos soltos pela cidade desperta.
Acaba por acolher a noite com um abraço de cais, de usina abandonada…Tudo vazio aos nossos sentidos distraídos.
Sentir-se como o primeiro humano
– sem religião ou literatura –
entregue à descoberta do mundo.
Ser a pele dos sentidos sem cortinas…
Viver o elevador das sensações desconhecidas e descobrir os andares ignorados acima de si mesmo (ignorados por sempre estarmos presos ao próprio lugar de ser).
Preste atenção ao redor: o mundo deixou de se mover. Somos os mesmos de sempre; os relógios perderam o sentido. Nosso eterno silêncio (silêncio de olhos confusos) desacostumou-se a saber o que dizer. E, mesmo na ausência, é possível sentir algo feito companhia por aqui. De um jeito inexplicável, importa sentir algo como “olhos” sobre nós, algo descendo como a noite sobre o mundo lá fora.
Temos um trato secreto, um acordo escondido até mesmo de nós. Vivemos cansados de fingir a vida vivida; despertamos diante da noite iluminada pela vida imaginada:
todas as possibilidades erguidas no talvez,
toda a impaciência dos dias de sol,
toda a claridade boa dos dias nublados…
Tudo isso pertence ao reino mais distante da nossa eterna dispersão.
• Fragmentos de “Cartas para Não Dizer”1 | Ruan de Carvalho, o poeta onírico.
“Cartas pra Não Dizer” é um livro que tenho elaborado nos últimos anos… Fala de amores não ditos, sentimentos adiados e acontecimentos cotidianos que se misturam aos fluxos de consciência.
Obrigado pela leitura! ❤️




