"uma cartografia do abismo"
Minha vida inteira tem sido uma grande distração > #8 Cartas Para Não Dizer
Perdi, em algum lugar do caminho, a pergunta que me levou a caminhar. Desde então, continuo andando com uma resposta imperativa e grandiosa, mas não sei o que significa.
Toda a gente imagina que “seguir o coração” geralmente é a melhor solução possível para o que realmente importa na vida. A intuição, entretanto, pode ser profundamente míope e medrosa… pode pesar sobre nós com sua mão de certezas indiscutíveis — marcação do destino sobre um mapa sem rotas ou referências, uma cartografia do abismo.
Na medida em que fui adivinhando a estrada (ou fingindo que a adivinhava?), abandonei minha procura do porquê de se caminhar. Tudo mais vem em decorrência disso — um nômade nascido no deserto. Sendo assim, qualquer terra é terra prometida aos olhos sem pátria e sem lar.
Num dia qualquer, saí da casa que costumava chamar de minha e fui… Para onde mesmo que eu ia?
Tenho apostado em todos os jogos, planejado todos os futuros, corrido em direção a todos os destinos. Minha vida inteira tem sido uma grande distração: trabalho distante, escrevo ansioso, converso sonâmbulo e ando sonhando, anestesiado ao longo das horas dos dias.
Tenho feito de tudo para esquecer minha desorientação rua afora, esquecer o caos que mora em mim e, quem sabe um dia, sentir o grande apagamento de tudo.
Minha única certeza tem sido a poesia — o que restou da flor após o vento despetalar todos os amores. Mesmo assim, meu coração hoje é um dos meus poemas rasgados, deixados no meio da sala. Como se eu fosse uma lembrança incômoda daquilo que deveria ter sido, mas acabei não sendo.
• Fragmentos de “Cartas para Não Dizer”1 | Ruan de Carvalho, o poeta onírico.
“Cartas pra Não Dizer” é um livro que tenho elaborado nos últimos anos… Fala de amores não ditos, sentimentos adiados e acontecimentos cotidianos que se misturam aos fluxos de consciência.
Obrigado pela leitura! ❤️




