"sou terra pra poesia chover"
Excesso de consciência, cansaço e poesia > #7 Cartas Para Não Dizer
Estive alucinando. Tempos depois, não soube mais como abraçar tudo o que existe. Meus pensamentos pairam sobre mim feito rio voador: tão imenso, tão espantoso, tão difícil de medir.
Continuo vagando oco pelos asfaltos… Um caminhar duvidoso da razão de caminhar, um perseguir a linha reta imaginária daqueles que desconhecem as curvas e arestas do mundo, que ignoram que a terra é repleta de contornos – um ritmo monocromático que despreza o verde de todas as relvas, o alaranjar-se do céu ao fundo, as infinitas cores de vida ocultas por detrás dos prédios e muros da cidade.
O sol, que lá do alto desnudava a escuridão das ruas de Porto Alegre, agora está opaco pra mim: só existe a legião dos pensamentos insistentes roubando meu sono inquieto.
Vivi o meu tempo de vida adulta olhando pro chão, curvado sob o peso das coisas pequenas – meu sentimento foi uma floresta de aço e concreto que guardava em si a vida real (sem construções e fachadas).
Os dias, na verdade, são tão cheios de curvas. Os dias são imensos, são repletos de uma coloração a misturar sensações, uma multiplicação de vozes a me chamar por versos que não consigo entender.
Sinto cada pequeno acontecimento nesse interminável momento em que os olhos se dilaceram: todas as cores, todas as flores, todas as folhas e todos os ventos que nunca existiram.
Depois de tanto cismar, quis experimentar todas as coisas.
Deitado no chão do quarto, abri os braços como quem espera a chuva
– compreendi que eu sou terra pra poesia chover.
• Fragmentos de “Cartas para Não Dizer”1 | Ruan de Carvalho, o poeta onírico.
“Cartas pra Não Dizer” é um livro que tenho elaborado nos últimos anos… Fala de amores não ditos, sentimentos adiados e acontecimentos cotidianos que se misturam aos fluxos de consciência.
Obrigado pela leitura! ❤️




