"O amor só existe pra quem aceita não entender"
Sobre a composição do amor >> #6 Cartas Para Não Dizer
Eu te vi com os olhos salgados de tanto viver e te segurei com os dedos quebrados de não sentir. Talvez confuso demais para dizer o que devia ter dito, talvez atordoado pelas imensas cores que se lançaram sobre mim: toda a fascinação daqueles olhos, que são o longe do espaço profundo – com sua luz estelar, sua velocidade imóvel e seu silêncio infinito.
Não faria diferença nada do que eu disse ou poderia ter dito… e mesmo o edifício da minha poesia se desfez em água diante daquele sol que nascia: eu quis dizer tudo, mas escolhi testemunhar a vida acontecendo mais uma vez.
Sento às margens da vida e, por um instante, me vejo totalmente disperso, ausente de desejos ou entendimentos. E que me venha apenas o que vier (sem forçar a existência) – assim como, desejando ou não desejando, o destino da chuva é se lançar sobre a terra. Não há o que se querer ou preferir.
Quem quer que tenha inventado o amor, só o fez porque estava distraído, sem a ambição de ter feito e sem a consciência do que fez. Pode até não fazer sentido, mas o sentido que mora nas coisas e o amor não residem na mesma rua. Tudo isso é uma grande incompreensão.
O amor só existe pra quem aceita não entender.
Então, descoordenadamente, a maré das sensações me cobriu. De repente, havia uma lua cheia em pleno dia. Sem que percebesse, eu escrevi algumas palavras como aquele que beija a terra prometida, como quem gravita sobre ela, pairando e se chovendo inteiro:
“Ela me amou – orvalho branco e euforia. Ela me sabe entre o peixe e o ar: beijo áspero, oceano e maresia”.
Enfim, amor!
• Fragmentos de “Cartas para Não Dizer”1 | Ruan de Carvalho, o poeta onírico.
“Cartas pra Não Dizer” é um livro que tenho elaborado nos últimos anos… Fala de amores não ditos, sentimentos adiados e acontecimentos cotidianos que se misturam aos fluxos de consciência.
Obrigado pela leitura! ❤️




