"arranco todas as placas da minha cidade interior"
Um apartamento que não é o meu >>> #5 Cartas Para Não Dizer
Não me sinto muito bem. É uma coisa estranha esse verão, essa cidade, essas pessoas… Existe, por trás de tudo aquilo que tento sentir, uma vertigem, uma tensão pelo novo. Mas o que nem você nem eu sabemos (por tão escondido que está) é o motivo de viver constantemente alerta, olhos perdidos, nó no peito e portas abertas.
Por que será? Não sei o que existe de tão sedutor nas ideias que vivo quando estou de pé, olhando pela janela, mas sem intenção de ver qualquer coisa lá fora. Na maior parte das vezes, esqueço da vida interior e acabo por fugir de mim. Engano meus pensamentos, levo-me para onde não devia ir, arranco todas as placas da minha cidade interior.
Cada ideia se impõe contra a minha vontade: não me entendo mais com as calçadas…
Não reconheço a mulher que me atende há anos no mercado onde compro, demoro a assimilar a feição de um colega de trabalho, vejo um desconhecido naquele homem que sempre fuma e toma chimarrão em frente ao prédio do lado…
Constantemente me sinto a entrar num apartamento que não é o meu – nem consigo me encontrar entre os móveis, entre o espaço ao redor deles e de mim.
Olho para o céu…
Porto Alegre se torna outra – novas águas enchem o Guaíba, trazendo barcos e vozes, molhando o ar da minha rua com cores estranhas. E eu me torno uma completude na umidade chuvosa do sul. Sou um peixe longe do oceano, sonhando com o alto-mar.
Tudo isso, essas ideias soltas ao redor de mim, tem sido a agitação dos meus momentos de meditação involuntária, dos sonhos que vivo apartado do mundo.
Essas coisas que duram a eternidade dos momentos desatentos:
todo o meu silêncio dentro de um carro;
toda inquietação que mora em mim enquanto espero;
naquele instante em que estou prestes a cair no sono;
nas minhas idas e vindas entre o quarto e a cozinha
ou quando fico imóvel diante da janela.
São as multidões de pensamentos e sensações, de imagens claras e novas vozes – como de pessoas que não conheço, todas a me contar algo.
• Fragmentos de “Cartas para Não Dizer”1 | Ruan de Carvalho, o poeta onírico.
“Cartas pra Não Dizer” é um livro que tenho elaborado nos últimos anos… Fala de amores não ditos, sentimentos adiados e acontecimentos cotidianos que se misturam aos fluxos de consciência.
Obrigado pela leitura! ❤️




