"só o som de uma caneta sem tinta"
Crio, destruo... E ainda amo >>> #4 Cartas Para Não Dizer
Veio sobre todas as coisas uma água quase invisível. Minha voz, que é síntese de multidões, agora se encontra presa nestas cartas.
Passei a viver como toda a natureza, que é escrava da repetição:
Crio, destruo; crio, destruo; crio, destruo… e tudo é sempre o mesmo, tudo vem em ciclos – onde tudo o que tenho feito é devorar meus pensamentos que permanecem presos a ti.
Eu me vejo ainda criança, como numa espécie de transe: olhos abertos pras invenções que erguia onde não havia chão ou formas. E esse ainda sou eu. Ainda sou uma imaginação infantil que vislumbra o que não existe e que ama e que crê... Ainda sofro por amores mais inventados do que reais. Ainda priorizo e exalto o amor nas coisas que faço, tudo pra poder esquecer de que não sei mais o que fazer com o amor.
Não importa todo amor que guardei e que ainda existe em mim, pois os oceanos que surgiram do meu amor são indomáveis, inacessíveis, inabitáveis pra quem tem medo de mar (como eu). E, quanto mais selvagem o mover das ondas sobre mim, mais falo delas, mais as procuro, mais desejo o alto-mar.
Todas as coisas que tenho tentado te dizer não dizem coisa nenhuma – mesmo o meu português não teve uma única palavra pra gritar… Tudo o que escrevo é só o som de uma caneta sem tinta rasgando um papel já envelhecido.
Se, às vezes, sinto tudo como se fosse uma lembrança imprecisa, é porque meu sentimento é o sal que ficou na pele após aquele oceano ter se esvaziado – como se o nosso passado tivesse secado sem que a gente percebesse o sol ardendo acima de nós. E como se o mundo, agora empoeirado pelo tempo que passou, tivesse se tornado entediante pra quem navegava em busca de um novo mundo:
sem navio, sem mapas, sem mar…
• Fragmentos de “Cartas para Não Dizer”1 | Ruan de Carvalho, o poeta onírico.
“Cartas pra Não Dizer” é um livro que tenho elaborado nos últimos anos… Fala de amores não ditos, sentimentos adiados e acontecimentos cotidianos que se misturam aos fluxos de consciência.
Obrigado pela leitura! ❤️




