"passei a inventar paixões"
O tempo se acumula, estala meu espaço de sentir | CPND #11
Duvidei quando acordei sozinho um dia desses em meio a uma falta recém-descoberta em mim. Manhã após manhã, dia após dia… Cada despertar do mundo largo de silêncios que já se sabia longe de nós (levanto tonto), toda vez que quase rejeito essa presença (abro as janelas), toda vez que olho pro canto vazio sem que ele me lembrasse de nada – por simplesmente não saber mais como lembrar: o tempo se acumula, o tempo estala meu espaço de sentir.
Não acreditei em mim quando abri um lugar imaginário ao meu lado na cama e vi o sol expor minha sensação incômoda de inventar o corpo dela perto do meu. Sem nada dizer (porque nada pode ser dito), olhei um semblante de fumaça e aqueles olhos imprecisos me olharam de volta em caos. Duvidei de tudo, pois me constatei disperso – milhares de pedaços de mim incomunicáveis entre si. Por isso, passei a inventar paixões: pra não ter que me reconhecer naqueles que fazem força em desviar os olhos do acidente, o amor estilhaçado, que convida a ser visto.
Sem que percebesse, eu forçava os ponteiros do relógio… Mais uma vez, arriscando tudo pra fazer o tempo voltar a muitas escolhas atrás: as chuvas retornam às nuvens, as árvores que plantamos voltam às sementes, as décadas se dissolvem até só restar aquele dia – tudo recomeça com mais uma chance de viver estendida à nossa frente.
Esperei à sombra de um ipê e trouxe comigo a carta que nunca escrevi. Naquele dia, não vesti os sapatos ou as meias… segui descalço por um caminho invisível rumo a um futuro incerto… e nele estamos a caminhar. De repente, a imagem dela se tornou mais clara minuto a minuto. Desta vez, restaremos eternamente num apartamento simples, repleto de cantos escondidos e de contornos vivos daquilo que nasceu entre nós. Agora somos apenas um espaço nu aos olhos do mundo, mas é ele que mantém as estrelas acesas na imensidão.
• Fragmentos de “Cartas para Não Dizer”1 | Ruan de Carvalho, o poeta onírico.
“Cartas pra Não Dizer” é um livro que tenho elaborado nos últimos anos… Fala de amores não ditos, sentimentos adiados e acontecimentos cotidianos que se misturam aos fluxos de consciência.
Obrigado pela leitura! ❤️




